O amor andava sempre no bolso da camisa, próximo ao peito. Quando ele cresceu demais para caber no bolso foi para uma mala de viagens. Na mala o amor ficava meio abafado, meio sem espaço. Ali o amor não podia crescer.
Mas o amor, como sempre, muito astuto, esgueirando-se pelas beiras, pulou da mala.
O amor vivia então numa estante, mas amor em estante fica vitrinizado, enjaulado, úmido e frio. O amor não gostava da estante. Ele começou a ficar cansado, os ácaros lhe causavam falta de ar e uma irritação constante nos olhos.
Ahhh, esse amor que não sabe onde fica, onde se cabe!
O amor pulou para o maior armário da casa. Impressionante, diante de todas as adversidades aquele amor que tinha tudo para minguar, cresceu.
Mas o amor cresceu tanto que não havia mais lugar para ele. O amor era enorme para todos os espaços onde tentava se colocar. Ele começou a ficar atrofiado, com dor nas costas, joelhos ardendo, um verdadeiro inferno. O amor queria diminuir, mas não era possível, ele aprendeu que depois que cresce ninguém diminui.
De tanto não caber, de tanto doer, de tanto procurar solução o amor caiu cansado. Ficou no chão, imóvel por tempos e tempos.
O amor agoniza todos os dias, tenta se levantar, se debate, chora, mas de nada adianta. O amor agora não é astuto como na época da mala, ele já não sabe mais se esgueirar.
O amor deseja a morte, de tanta dor que sente. Mas ele não sabe, ou não quer saber, que amor, por excelência, de verdade, não morre.
O amor ficará deitado, em semi-coma, anestesiado até que desista dessa vida e por ali se afunde ou que acorde novamente. Mas ele não sabe ainda, nem tão cedo saberá.
O bolso, a mala, a estante, o armário não são suficientes para esse amor. Ele quer a liberdade de estar junto, de não ser tamanho, mas ser completo.
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